As crianças alimentadas por sonda têm muitas características em comum com outras que têm problemas alimentares. Outras características parecem ser únicas da criança com grave transtorno alimentar. A gravidade ou a combinação especial dessas características impedem que o lactente adquira muitas das habilidades de desenvolvimento alimentar que normalmente estariam presentes com 1 ou 2 meses de vida. Dois ou mais dos seguintes comportamentos físicos e sensoriais foram observados regularmente em lactentes com menos de 18 meses que usam sondas alimentares:

Hiperextensão do pescoço, acompanhada por adução da escápula e elevação da cintura escapular, são movimentos primários peculiares dessas crianças. Esses padrões de tônus e movimentos influenciam muito a alimentação do lactente e suas habilidades respiratórias.

As dificuldades respiratórias são muito frequentes. Isso normalmente reflete a descoordenação dos padrões de sucção e deglutição com a respiração. Os problemas de controle respiratório contribuem para o medo e o cuidado como abordagem geral em experiências novas ou malsucedidas. Os problemas respiratórios podem ser exacerbados quando a criança produz muco excessivo que se acumula nas vias aéreas faríngeas.

Os lactentes com disfunção respiratória primária relacionada com a prematuridade ou com distúrbios cardíacos são, com frequência, incapazes de coordenar o padrão sugar-deglutir-respirar. Sua energia é direcionada para a parte respiratória dessa tríade. O bebê pode, temporariamente, ter ausência do reflexo da deglutição ou recusar o mamilo quando lhe é oferecido.

Os padrões de sucção disfuncionais e desorganizados são característicos da maioria dos lactentes alimentados por sonda, prematuros e com disfunção neurológica. Em geral, eles não têm o ritmo da sucção.

Os movimentos podem ser mais desorganizados quando se toca ou aplica pressão na língua com o mamilo ou uma colher. O lactente desorganizado pode ter sucção rápida e não-nutritiva com a mamadeira ou pode esquecer de fazer a pausa para respirar no ciclo sugar-deglutir-respirar.

Os transtornos da deglutição excluem o desenvolvimento bem-sucedido da alimentação oral.

O lactente pode ter dificuldade de usar a língua e os lábios para organizar o bolo alimentar ou o líquido na cavidade bucal para projetá-los para trás para que sejam engolidos.

Pequenas quantidades de alimento podem pingar na parte posterior da língua sem provocar o reflexo da deglutição. Quando o reflexo da deglutição não ocorre, as vias aéreas estão abertas e desprotegidas, e a extremidade superior do esôfago não se abre para permitir a passagem dos alimentos. A aspiração do alimento para os pulmões é a consequência natural. Algumas crianças têm reflexo da deglutição tardio. Em vez do padrão de desencadeamento do movimento para a parte de trás da língua e da estimulação dos pilares anteriores das fauces (passagens da boca para a faringe), o reflexo será gerado depois de os alimentos ou líquidos terem se acumulado nas valéculas ou nos seios piriformes. Apesar de a deglutição ocorrer, uma porção do bolo alimentar pode ser aspirada antes ou depois da deglutição.

As respostas hipertensivas à estimulação oral são frequentes quando o lactente foi privado de estímulos (aferências) sensitivos na boca. Quando a aferência sensitiva é fornecida, pode ser muito forte e desconfortável. Desde que muitas crianças precisam de procedimentos invasivos, como aspiração e inserção de sonda, pode desenvolver a crença de que a boca é um lugar desagradável. O lactente evita usar a boca para explorar e aprender, porque é desconfortável. Torna-se desconfiado e cauteloso com as pessoas que tentam aproximar-se de sua boca, achando que o estímulo sensitivo será intensamente desconfortável.

As respostas sensoriais de defesa à estimulação facial e oral são a dificuldade principal em algumas crianças. As respostas defensivas são extremamente negativas, e colocam a criança imediatamente na reação lutar ou fugir (resposta biológica ao estresse agudo). A percepção básica da criança é de perigo e o estímulo sensorial é, quase sempre, percebido como um ataque. A atitude sensorial defensiva pode ocorrer em reposta a toque, movimento, odor, sabor e textura do alimento.

O refluxo gastroesofágico ocorre quando os músculos da extremidade inferior do esôfago não se contraem o suficiente para evitar o retorno do conteúdo estomacal para o esôfago e a faringe. O refluxo, em geral, resulta em vômito. O refluxo é desagradável para a criança e para seus cuidadores. A irritação constante do esôfago com ácido pode reduzir o desejo de a criança ingerir alimentos por via oral, por causa do desconforto.

O esvaziamento gástrico retardado é observado quando o alimento permanece no estômago e não é eficientemente esvaziado no intestino delgado. Isso contribui para o refluxo gastroesofágico e para a redução do apetite. Quando o estômago contém quantidade substancial de alimentos da última refeição, as crianças não têm fome quando a próxima é oferecida.

Quando o sistema gastrintestinal está sob grande estresse, sobrevêm engasgos, ânsia de vômito e náuseas. Esses sintomas são os mais comuns como efeito colateral de medicação ou de cirurgia gastrintestinal. As crianças cujo refluxo foi sanado com fundoplicação podem ter ânsia de vômito durante ou entre as alimentações por sonda. Esse movimento improdutivo e os engasgos são extremamente angustiantes para a criança e a família e reduzem muito o desejo de comer. Quando o esvaziamento gástrico é retardado, pode-se acrescentar a piloroplastia à fundoplicação, criando uma válvula aberta na parte inferior do estômago para melhorar o esvaziamento gástrico. Algumas crianças têm descarga rápida do conteúdo do estômago para o intestino após esse procedimento. As mudanças súbitas da glicose sanguínea e os sintomas do sistema nervoso autônomo, como sudorese, palidez e náuseas podem decorrer da alimentação por sonda.

A aversão à alimentação resulta da interação complexa das respostas sensório-motoras, gastrintestinais e ambientais. É um termo usado para descrever crianças que simplesmente não querem comer. Em geral, é percebida como um problema de comportamento, com a criança confrontando os adultos com forte recusa em aceitar alimento suficiente para a nutrição adequada. O termo anorexia infantil é usado ocasionalmente para descrever essas crianças. Contudo, um grande número delas têm características sensório-motoras e gastrintestinais sutis que tornam o ato de comer desconfortável. Essas crianças podem adotar comportamento de não-alimentação para reduzir ou evitar o desconforto. Essa opção pode tornar-se forte e inflexível quando a criança é pressionada para comer.

A falha de desenvolvimento é o resultado final das dificuldades alimentares físicas, sensoriais, metabólicas ou ambientais. A criança não cresce adequadamente com a alimentação oral. A alimentação por sonda pode ser iniciada como medida provisória para aumentar o situação nutricional da criança e melhorar o crescimento.

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