As sondas alimentares são usadas como suporte de vida e para facilitar o crescimento da criança sem risco de desnutrição, fadiga excessiva ou aspiração. Teoricamente, a introdução da sonda deve ser um evento positivo, que apoia o crescimento e o aprendizado. Quando as crianças e suas famílias passam por um período extenso de dificuldade alimentar, podem achar que a sonda é boa. As sondas alimentares são uma oportunidade para que a criança fique bem nutrida sem a pressão de comer mais ou com maior rapidez. Os riscos de aspiração e doença respiratória crônica são reduzidos. Os pais em geral expressam alívio e tanto eles quanto a criança ficam mais felizes quando se inicia a alimentação com sonda.

A sonda pode ser percebida de modo negativo por algumas famílias e profissionais, que ficam extremamente desmotivados com a indicação da sonda. Quando os problemas neurológicos são subjacentes às dificuldades alimentares, em geral, há um medo grande e velado de que uma vez que a criança recebe a sonda, ela será necessária para sempre. Em certo sentido, a sonda é vista como um símbolo exterior do medo de que seu filho seja muito diferente dos outros. De alguma forma, se o tubo fosse retirado, significaria que a criança é menos deficiente, ou mais parecida às outras. A sonda, muitas vezes, representa o fracasso que muitas mães sentem quando são incapazes de alimentar seu bebê. Em nossa cultura, há uma forte conexão emocional entre sentimentos de adequação como mulher e mãe e a capacidade e o entusiasmo com que os filhos comem. Quando a criança não pode ou não quer comer de modo que atenda às nossas expectativas, sentimo-nos decepcionados e ficamos perguntando onde falhamos. Mesmo quando existem evidências objetivas de que os problemas de alimentação da criança não são relacionados com questões de cuidados maternos, há uma voz interior irritante que nos diz que, se fosse esperto o suficiente, ou criativo o suficiente, ou suficientemente persistente, nosso filho seria capaz de comer. A sonda pode tornar-se o símbolo derradeiro, que muitas vezes nos diz: “Eu falhei”.

A introdução da sonda é frequente antes de a criança ser encaminhada para o tratamento de problemas alimentares. Se a criança vem recebendo terapia, a família pode ser incentivada a suspendê-lo quando a sonda é inserida. Isso confirma suas suspeitas de que o médico acredita que a criança nunca vai se alimentar pela boca. A sonda como um suporte nutricional pode ser uma amiga e não uma inimiga. Pode permitir que a criança atinja melhor estado nutricional e, ao mesmo tempo, aprenda a comer de forma mais segura e confortável.

A alimentação por sonda sempre reduz a capacidade ou o desejo da criança de comer por via oral?

Quando a alimentação por sonda é iniciada imediatamente após o nascimento, a criança não tem oportunidade de construir associações entre sensações positivas na boca e redução da fome ou entre a interação social com outra pessoa envolvida na refeição. Se a alimentação por via oral vier a ser possível posteriormente, as associações e as principais motivações para levar administrá-la estarão ausentes. A criança pode não ver qualquer relação entre aprender a lidar com o alimento na boca e os sentimentos de satisfação interna que ocorrem depois de uma boa refeição. Isso pode constituir uma barreira maior para o estabelecimento da alimentação oral do que o problema sensório-motor original.

A alimentação por sonda pode iniciar ou aumentar o refluxo gastroesofágico. Quando o refluxo ocorre regularmente, podem sobrevir irritação e dor esofágica. Como isso passa a se associado às refeições, a criança pode fazer a ligação entre comer e sentir incômodo. Isso reduz o desejo de saborear a comida e de se alimentar por via oral.

Quando se inicia a alimentação total por sonda que já recebeu alimentação por via oral, a boca pode passar por muitas mudanças. O estímulo fornecido pelo contato com a boca, utensílios de alimentação (ou seja, mamilos, colheres, copos) e alimentos, muitas vezes desaparece com a experiência sensorial da criança. Os pequenos movimentos de sucção e deglutição que possam ter existido, ainda que insuficientes para apoiar a nutrição, não são mais estimulados nem praticados. Com o tempo, parece que são esquecidos e não ocorrem quando o mamilo, a mamadeira ou o alimento é colocado na boca. A estimulação negativa e invasiva no rosto e boca continua ou aumenta à medida que aspiração, intubação, inserção de sonda e outros procedimentos que aumentam a qualidade vida são realizados. Aos poucos, a boca fica desacostumada com tato, paladar, textura e outros estímulos que tinham associações prazerosas.

O rosto e a boca podem tornar-se fisicamente hipersensíveis ao toque e ao gosto quando a criança não sentiu esse tipo de estímulo por longo tempo. É como se o sistema nervoso aumentasse a sensibilidade para pesquisar estímulos que foram retirados com a colocação das sondas alimentares. Quando há estímulo sensorial, ele é percebido como invasivo, desconfortável, súbito e intenso. A criança não aprecia a sensação e o sabor dos alimentos na boca. Se o bebê tiver problemas de coordenação motora, pode ser incapaz de colocar os dedos, os punhos e os brinquedos na boca. É incapaz de participar da exploração, que é o principal caminho para o aprendizado nos lactentes e crianças pequenas. Como a maior parte dos estímulos sensoriais é fornecido por outra pessoa, a criança passa a ser cautelosa quanto a permitir que qualquer pessoa se aproxime de sua boca.

Grande parte da informação sensorial fornecida por outros é desconfortável e desagradável. A aspiração e a inserção da sonda nasogástrica ou orogástrica são frequentes para muitas crianças em risco clínico. Com cada invasão do espaço bucal, a criança reforça a crença de que as sensações na boca são perigosas e desagradáveis. Tem início um círculo interminável quando a criança ergue barreiras contra quem fornece estimulação oral ou alimentos.

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